Tem uma notícia recente circulando entre quem estuda perfumaria que me chamou atenção: pacientes que usam canetas emagrecedoras da classe GLP-1 — Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Zepbound — estão relatando mudanças reais na forma como sentem cheiro. Não é um efeito colateral listado em bula. É algo que vem aparecendo em relatos clínicos, em ensaios pessoais e em conversas informais, e que toca direto no que eu faço todos os dias: pensar em como um perfume é sentido, não só como ele é feito.
O olfato que muda sem aviso
Segundo reportagem do HuffPost, parte dos pacientes descreve um olfato mais aguçado depois de começar o tratamento. Menos tolerância a cheiro de comida pesada ou frita, e mais percepção de perfumes e cheiros do ambiente. Um comediante contou que um único perfume da Le Labo virou uma espécie de obsessão por dias. Outros relatam reaplicar mais vezes, misturar fragrâncias, trocar de preferência com uma velocidade que não tinham antes.
Uma parte desses pacientes migra pra florais densos e composições com baunilha, formando coleções de perfume que crescem rápido, quase na mesma proporção em que o apetite por comida diminui. É como se o desejo por sabor não desaparecesse, só mudasse de lugar.
Faz sentido pra mim que isso vire coleção, e não só uma compra isolada. Perfume é uma das poucas experiências sensoriais que a gente pode repetir, combinar e ajustar em camadas, sem depender do corpo estar com fome ou com vontade de comer. Se o olfato está mais atento, é natural que a pessoa queira explorar mais dele, e não menos.
Quando o perfume querido vira insuportável
Só que o efeito não é sempre esse. Um ensaio pessoal publicado na Allure em 2025 descreve exatamente o oposto: perfumes que a autora amava, principalmente notas gourmand como baunilha, caramelo e figo, ficaram insuportáveis depois do tratamento. Em alguns casos, o relato chega a mencionar náusea, num efeito comparado a mudanças hormonais de gravidez.
Duas pessoas, dois medicamentos da mesma classe, duas reações opostas ao mesmo território olfativo. Isso me interessa mais do que qualquer conclusão fechada, porque é exatamente o tipo de coisa que qualquer perfumista já sabe de outro jeito: cheiro nunca é só química, é também memória, corpo e contexto.
Eu vejo essa divergência todos os dias, em escala menor, sem remédio nenhum envolvido. Duas pessoas cheiram o mesmo perfume e uma sente conforto, a outra sente enjoo. A diferença quase nunca está na fórmula. Está em que momento da vida aquele cheiro encontrou a pessoa.
O que a ciência sabe até agora
Fatima Cody Stanford, da Harvard Medical School, descreve o fenômeno como um aumento da consciência sensorial, não uma mudança completa do olfato. Ainda não existe estudo clínico controlado que prove uma relação direta de causa e efeito entre GLP-1 e alteração olfativa.
O Monell Chemical Senses Center, referência mundial em pesquisa de olfato e paladar, propõe algumas hipóteses: sinalização de recompensa alterada no cérebro, condicionamento de aversão ligado à náusea, e até modulação direta do processamento olfativo, já que receptores de GLP-1 estão presentes em áreas do cérebro ligadas a olfato e apetite. São hipóteses, não veredito. Mas ajudam a entender por que o mesmo remédio pode abrir o olfato de uma pessoa e fechar o de outra pra um mesmo tipo de nota.
Enquanto isso, os gourmands crescem
Uma análise do The Guardian de 2025 mostra crescimento de dois dígitos em lançamentos de perfumes gourmand: baunilha, café, caramelo, acordes de confeitaria. Uma leitura possível é a de compensação sensorial: com menos espaço pro prazer de comer, o prazer migra pra inalar.
Eu não preciso de uma pesquisa pra saber que baunilha carrega esse tipo de prazer. Fabulous Vanilla nasceu de noites de verão em Trancoso, da baunilha de Madagascar como um abraço provocante. Golden Tuberose e Velvet Tobacco, que já contei aqui no blog, também vivem nesse território gourmand mais adulto que está em alta — cacau amargo, madeira, couro, no lugar do doce óbvio (ver Golden Tuberose e Velvet Tobacco). E quem migra pra florais densos encontra em Majestic Rose uma rosa que já nasceu pensada pra ocupar espaço, pra durar no ar depois que a pessoa sai da sala.
O que fica pra quem cria perfume
Não sou médica, e essa notícia não é um convite pra ninguém tomar remédio pensando em perfume. É outra coisa: um lembrete de que o cheiro tem um peso psicológico que a gente ainda está aprendendo a medir. Quando o corpo muda, o que a gente sente muda com ele, inclusive nas coisas mais simples, como abrir um frasco de perfume de manhã.
Eu crio fragrância pensando em memória, em presença, em como um cheiro fica na pele de alguém depois que a pessoa já foi. Esse tipo de notícia só confirma o que eu já sentia: perfume nunca é acessório. É linguagem do corpo, e o corpo está sempre contando uma história nova.
Por isso também acredito tanto em ter mais de um perfume por perto, e não um só pra vida toda. O olfato muda com a estação, com o humor, com a fase — remédio ou não. Ter opções pra combinar, alternar ou simplesmente trocar quando um cheiro deixa de fazer sentido é, no fim, um jeito de respeitar essa mudança em vez de lutar contra ela.